sábado, 21 de junho de 2008

Recusa de migalhas

Como é querida a que se quer
Chamo-a disso em meus versos
Pois é de fato o que é.
Olho-a hoje, querida
E ainda te vejo bonita.
Mas quando me esmola migalhas
Que aprendi a digerir como banquetes
Festejados em imaginários palacetes
Refuto-as e vomito-as como farelos que são.
Eu que tive noites tantas a seu lado
Ao meu só lado, sem aparente divisão
Não me contentarei - sem chances!
Com os cumprimentos gratuitos
Em esporádicos encontros fortuitos
Que lembram a dor do perdido encanto
E o secar do antigo pranto.
Não me satisfazem a sede ou a fome
Eis porque prefiro, às esmolas jogadas,
A dor do distante e saudade do seu nome
Melhor que seja só lembrança constante.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Culpa e Medo

É tudo culpa do medo!
Meus sonhos grisalhos
Já posso chamá-los frustrações.
Meus ódios platônicos e
Os amores faraônicos
Perderam-se nos meus senões.
E se ainda sou algum desejo
Ou se te olho e almejo
Termino sempre nos mil perdões.
As desculpas são porque te vejo
Planejo e não faço, nunca ajo.
É tudo culpa do medo!

sábado, 7 de junho de 2008

Escolhas perdidas

Faça daí suas boas escolhas.
Sejam as corretas ou as péssimas,
Uma coisa eu lhe asseguro:
A perda é certa.
E tudo que for preterido já destino:
Vira um todo pretérito.
Aí você usa seu bom tino
E decide mais uma vez:
Trata-os com desprezo,
Com palavrões de despeito
Ou migalhinhas de pena.
Ou gasta suas lágrimas
Em lembranças de lamento
Faz do passado um tormento
E um amigo do sofrimento.
Mas se melhor lhe aprouver
Vire as costas para o preterido
Faça dele só um lixo
E finja, com sorridentes máscaras
Que nada disso foi doído.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Ouvindo os gênios de Irará e Juazeiro

Para ser poeta, não basta rimar.
Tem que ver nas angústias suas
Grilos desesperados que não param de falar.
Cigarras ensurdecedoras e nuas,
Que insistem nesse alto cantar.
Tem que ver riso na desgraça
E na graça, uma grande desgraça.
Há de ver mãe na solidão
E a poeira do sim
Num avalanche de não.
Tem que ver nos carecas de chapéu
E nos homens de gravata
E nos viados de batina
E nas putas de hábito
Muito mais do que a fácil censura.
Tem que ver beleza nos grilos
E riqueza na pobre usura.
Pode até ver nos prédios
Varões que disputam.
E nas ruas, fêmeas que labutam
Vaidosas, cheirosas
Sujas ou porcas.
Pode ver putas nessas belas vistosas
Ou damas em largadas rameiras
Nem um pouco vaidosas.
Pode ver nos galhos secos de árvores mortas
Os fios do cabelo da mais bela menina.
Mas parece essencial
Não deixar que se lance cimento em cima.
Tem que rolar na cama
Sem cobrir-se de lençóis
Ou esconder-se em caracóis.
Também não vale proteger-se em cachecóis.
Tem que honrar em cada verso, ou em cada nota
O fardo e o presente que lhe foi dado:
Essas idéias que borbulham numa cabeça poliglota.

sábado, 31 de maio de 2008

Querer simplesmente

Tudo que eu toco eu quero
Tudo que eu quero eu tento
Tudo que eu tento, eu não consigo.
Se consigo, não gosto. Não tenho.
E simplesmente choro e sigo.
Ver-te, tentar-me e não ter
A despeito de tanto querer
Faz-me pensar a respeito:
Do desejo, qual será o porquê?
E digo-me não mais tentar:
- Para quê lançar-se ao mar
Se a certeza é afundar?
Eis que até determino
A desta água não mais tomar .
Mas termina voltando-me o copo
E me embriago de tentativas.
Frustradas. Falidas.
Jovens desesperadas,
Pobres suicidas.

domingo, 25 de maio de 2008

Um desejo

Quero seguir livre
Desimpedido com os destinos.
Do sono, quero ir só ao não saber
Quero andar roçando todos os possíveis riscos.
Quero que as amarras que ditam o possível
Desamarrem-se de vez de minhas entranhas.
Quero só sangue repleto de uma só ousadia
Correndo-me em minhas veias que me empurram
Violentamente.
A um não-lugar -
E é o que quero: ausência de lugares.
Sonho com poder chegar cerca
Da ponta desses tantos precipícios.
Nunca caí em nenhum:
Mantenho-me longe do inesperado.
Do não-quisto, do inimaginado e do imprevisto.
Sairei um dia, veloz, em busca do precipício
Sem hesitar por qualquer instante, avançarei
Não sei onde cairei. Nem sei se cairei.
Talvez o inesperado seja só o conhecido:
Todas aquelas amarras são velhas conhecidas
Já cercam e tramam soltas num labirinto
Sem saída: o de quem pensa ter destino.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Ele segue nu

Andava na rua, de macacão azul e tênis branco, quase preto de surrado. Era meio-dia, sol na cabeça, e o homem seguia, como se fosse para algum lugar importante. Sua casa, talvez? Seria a hora do merecido descanso? Acabara de cumprir mais um turno de trabalho na construção civil, ajudante de pedreiro que era. A vida não lhe deu nada mais do que isso: só os tijolos alheios, e o minguado salário ao fim de cada mês. Mas, de repente, o homem pára, abaixa e tira o velho tênis. Os que passam de carro olham curiosos: o sol esquenta o chão e a cabeça, mas o homem se descalça. E ele mantém em si o foco: abre cada botão do macacão, sua única veste, joga o pano azul nas costas e segue andando. Nu. E eu, que a tudo assistia paralisado, não consegui sequer afrouxar o nó da gravata e abrir ao menos alguns dos botões da camisa branca - de força - que me aprisiona. Olho mais uma vez, mas o homem vai embora, afastando-se, num só ato de despir, da sociedade que o obriga a carregar tijolos, a sorrir, a chorar e a vestir aquele velho macacão azul que só esconde o óbvio. Mas por que esconder o óbvio? Viva os livres. Quero um dia ser louco também.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Simples Desejos

Quero uma nêga
Que não me negue
Um pouco do seu amor.
E um querido amigo
Que beba comigo
O resto daquela dor.
Quero um cantor
Que faça de qualquer bossa
(velha ou nova, não importa!)
Um alento ao meu torpor.
E também um pintor
Cujo pincel possa
Expressar num branco, em cores
Um pouco do muito que sou.

domingo, 4 de maio de 2008

RESPOSTA AO LEITOR

Caríssima leitora do meu blog,
(Aos outros leitores - que não a destinatária - sugiro que leiam o texto anterior "Nunca pertenci." antes, já que aqui escrevo uma resposta).

Muito obrigado pela sua gentil correspondência. Fico contente de que alguém leia isso aqui, mesmo que não dê dinheiro. É a vaidade insuportável dos narcisos, pretensiosos e inseguros, que me faz vir aqui, às vezes, em busca de uns elogios descomprometidos.

Mas vamos direto ao assunto: você então me pergunta, leitora, se afinal sou homem ou mulher. Nome de homem e um texto de mulher? “Conjugando no feminino, senhor escritor?”, você me perguntou, quase desaforada. Desculpe por confundi-la. Jamais foi minha intenção.

Responderei diretamente a sua questão, minha cara: ninguém escreve sobre alguém diferente do que é de verdade. Tudo que falamos, senhora leitora, é nosso. Posso até me justificar no início, posso mudar o gênero do artigo, mas são só disfarces. É sempre sobre nós mesmos que estamos falando, mesmo quando falamos dos outros. Ou melhor, talvez, principalmente, quando falamos dos outros. Ou pelos outros. Sim, senhora leitora, sou homem. E o texto anterior – que lhe causou aparente perturbação – é sim no feminino.

Adianto a outros eventuais leitores: vão me perguntar se estou falando “no geral” ou apenas sobre mim. No geral e sobre mim, respondo. Todos eles que escrevem como mulheres, sobre mulheres, e falam das mulheres, são mulheres também. Em algum lugar. Em algum lugar, na verdade, senhora leitora, somos tudo o que a senhora puder imaginar. E um pouco mais.

Obrigado pela preferência.

Nunca pertenci.

Eu nunca pertenci a nenhum grupo social. Sempre fui muito cheinha pra andar com as bonitas, muito bonitinha pra andar com as feministas, feminista demais pra entrar para as anarquistas. E minha vida continuou nisso. Sempre tentando me encaixar em algum grupo, ente coletivo, clubinho, qualquer coisa, até numa reunião espírita estava valendo.

Depois das dúvidas adolescentes, surgiram os outros problemas de encaixe. A dificuldade era grande pra escolher entre H - de hétero - ou GLBT - derivações mais diversas da sexualidade. Cinco grupos para se encaixar, e eu, como sempre, rejeitada: até pra ser considerada BI eu era hétero demais. E prosseguia tentando, chutada dos grupos. Saradas e sedentárias têm - ambas - dificuldades para me absorver. Nunca soube responder, convicta, se era alguém "do dia" ou "da noite". As dúvidas entre ser calorenta ou friorenta voltavam-me atrozes a cada início de estação. Nem preciso dizer que oscilo com razoável desenvoltura entre as boas e as más.

Cada vez que me colavam um rótulo, eu ia saindo pelas beiradas. Nenhum nunca colou em mim assim, de verdade. Os meus pretensos iguais não se viam como eu ao olharem-se no espelho. E nem eu conseguia me enxergar naqueles modelos ultrapassados de grupo. Todos necessariamente aglutinadores, qualquer que fosse a profundidade daquelas relações.

Segui assim toda minha vida, já desprezando qualquer nova tentativa de agrupar-me. Nunca consegui ser careta. Nunca me afundei nas drogas com vontade. Fiquei sempre no médio, no meio. E era assim, chutada levemente pelos que se pretendiam superiores somente por estarem em grupo. Fui seguindo sozinha. Deitei-me em divãs de todas as terapias (exceto as grupais). Conformei-me. Ergui-me e passei a intitular-me contente embora sozinha, independente, bem resolvida. Até, às vezes, feliz.

E fui levantando a bandeira de quão bom é ser única, individual. Mas quer saber? Preciso fazer uma confissão: vou voltar aos Vigilantes do Peso. Lá eu era alguém.

Percepção

Só não sabes ser mais uma cruel em uma hora:
Quando pretende-te caridosa.
Aprende: pises à vontade, firas e chutes
Mas não acaricies assim
Daí de tão de cima
Como se do céu pisasses a terra
Com saltos finos e cortantes.

Prefiro os teus passos firmes
Aqueles gordos barulhentos
E levemente desajeitados
Predestinados a amassar
Mas não a dilacerar
Um gostar que foi já grande
E que agora só vejo minguar.

Clichês de Despedida

Beijinhos de despedida desdenhosos
Esmole-me-os!
Já não mais cabem entre nós
Aqueles saudosos vocábulos
Um dia tão carinhosos.

Passada a fase de descobrimos
As coincidências no olhar.
O mundo que nos era o mesmo
Assisto aos poucos definhar.
Mas já nem sinto aquele luto
De quando perdemos a meada:
Virou tudo cansada luta
Pra manter nos breves encontros
Esses sorrisos complacentes
Que escondem múltiplos desencontros.

Carrego minha pena, dispenso a sua
Nem precisa disfarçar:
Já lhe aprazem mais leves companhias
Vejo-me um fardo. Serei só isso de fato?
E nesse festival de arestas
Que já nem se tenta lapidar
Olho pra trás e penso:
Foi verdadeiro o nosso concordar?

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Dona da rua

Passe o seu batom vermelho.
Tome para si as ruas
Faça de esquinas casas suas
Torne-se dona de si própria.

Que lhe chamem mulher imprópria.
Seja dona de suas rédeas e bolsa
E o que de si disserem, nem ouça.
Mas faça valer, puta, toda sua força.

E tenha em seu porte a dignidade
De quem é dono de sua cabeça
E que na crua língua tem o dom da verdade
E que vê naquele que lhe julga com o olhar
Apenas alguém que não se lhe mereça
Que só lhe terá, efêmera, se lhe decide pagar.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Desejos de alma humana

Jorro branco transformado em lama
Vi-te nascer reluzente, na cama
De uma catarse de genialidade humana
Ou de um doce amor, que ao momento engana
E chorei-te ao morreres apagado, na fraca chama
Quando já não és mais lama, já não rolas na cama
E já nem mais enganas. Agora, és só a alma humana.

Frustração do gozo inalcançável

Vida, masturbação sem gozo.
Num infindo vai e vem a lugar nenhum
Sem se sair de onde se está
Sem consciência de que o gozo não chegará.
E se chegar - instantâneo - de que valerá?

Tantos sêmens lançados ao vento
Inférteis vidas mortas antes de nascer
Sonhos ilusórios, doces consolos
Almas estéreis na luta vã da perpetuação.

Como se possível fosse continuar
O que na natureza é efêmero
E na essência é tudo o que temos
E cujo valor total é um mero nada.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Ponto cego

Da ilha segura de onde estou
Encaro o precipício do outro
Sempre perigoso outro.
Enfia a faca,
e torce-me o pescoço.
Saio da terra firme que me abraçou
A me perder no fundo do poço
Procurando o imaginado ponto certo
Na memória e no olhar presente.
E lamento: a cada passo, sinto-me só
Pressentindo-me menos perto.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Poema a minha terra

Triste terra que tanto engana
E faz de uma preta qualquer
Uma falsa autêntica baiana
Para lentes vorazes de gringos
Brancos, pretos e japoneses.

Tristes falsas baianas
Cores nas suas caras maquiadas
E cor nenhuma nas guias do seu coração.
Nem tem santo na cabeça
E nem tabuleiro que mereça
A reverência de um ogã.

Já cantadas triste Bahia e falsa baiana
Terra pobre que rima com poesia
Mas que vive assistindo de braços cruzados
Os seus santos amarrados
E os seus homens afogados
Nesta lenta letargia.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Versos de bons tempos

Esse pretensioso humano que somos
Quer esconder-se, na complexidade
Dos modelos, velhos, clichês e simplificados
De outros que também se pretendiam complexos
E cujos caminhos também se cruzaram.

Narcisismo estranho este que compartilhamos:
Pensamo-nos tão complexos.
Você se diz bicho, eu me creio humano
Mas no fundo, sou o humano mais plano
E você, o bicho mais humano.

Esperados versos

Lê-me sujeito sem predicado
Sem falsos predicados,
Adjetivos inventados,
Nada de elogiosos agrados.
Mas sou-lhe grato.

Bem-intencionada crueldade
Procuro mentira em sua verdade,
Busco jogos na honestidade.
Mas encontro conclusões inequívocas.
E são tantas as minhas dúvidas!
Arrebata-me a sua certeza.

Pediu-me versos?
Escancaro-me em prazeres perversos
Do estranho gozo alheio
Que desnuda pela verdade.

Descobrir-me masoquista não provoca dor
Mas encontrar o sádico certo
Traz inevitável angústia:
Querer-te ter sempre perto.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Mais do mesmo

Fico assim observando
Tantas bocas abrindo e fechando
Expelindo verdades incertas
Tramando mentiras inúteis.
Eles sorriem de tudo, eles choram do nada
Parecem pensar que algo de fato vale a pena.
Dou passos atrás das gargalhadas alheias.

Manhãs até que são fáceis
Vagueio nas banalidades
Começos rasos e planos,
Mornos e Mortos.
À tarde, tornam-se ágeis
Angústias constantes
Vulcão dilacerante
Dêem-me, por favor, um instante.

Vou roer todas as unhas internas
Mas não derramarei metade das lágrimas presas
Morrerão presas em solitária
Na solidão da minha angústia.